EUCARISTIA: ENCONTRO DE SILÊNCIOS

23/03/2011 18:23

Todo o mistério eucarístico, celebrado sobre o Altar, tende para o silêncio. As palavras proferidas pelo sacerdote, de modo geral, compõem a trama discursiva do ritual litúrgico. Inseridas nesse contexto tão evocativo e memorial, invocam realidades da fé cristã reveladas pelo próprio Cristo. Contudo, tem como função privilegiada reconduzir o fiel para o mesmo silêncio de onde brota toda expressão oral. O silêncio precede toda tentativa de manifestação vocal. Igualmente o canto. Ele exerce também a função de conduzir para a experiência com o Transcendente. Na santa Missa exerce um papel de extrema delicadeza. E por isso mesmo e por sua capacidade de dar às palavras um ritmo e melodias suaves e belas, está mais propenso ainda para a promoção do silêncio que gera diálogo com o Grande Silêncio.

Entretanto, quando os elementos constitutivos das ações litúrgicas são afetados por ruídos e sons estranhos ao seu ambiente, o Mistério do santo Sacrifício e seus efeitos salutares para a alma ficam enevoados e torna-se pesado e enfadonho responder aos cânticos e orações; permanecer atento ao que acontece sobre a mesa santa; esperar com alegria a chegada do Amado. Fica difícil professar a fé como uma criança que confia plenamente em seus pais. No encontro amoroso é assim: quando o amado beija sua amada cessam as palavras, reina o silêncio. Tudo é calma e solidão acompanhada.

Se esse silêncio é abafado pela pressa; se a palavra perde o tom e o atrativo; se cantar é um imperativo necessário que apenas preenche vazios; se a oração perde o sentido de encontro amoroso, gerando ansiedade e desconforto, então a liturgia sacramental do mistério eucarístico perde a força sagrada e sedutora de comunicar a beleza da Beleza Encarnada. De comunicar a alegre certeza de que Jesus Sacramentado é o Céu na terra. No encontro amoroso é assim: quando o amado beija sua amada cessam as palavras, cerram-se os olhos, reina o silêncio. Ambos descobrem a beleza da presença um do outro. Tudo é graça. Tudo é dom.

Vale lembrar que foi no glorioso silêncio da eternidade que o Pai Eterno decidiu enviar seu Filho único e amado para salvar o ser humano. Foi no silêncio da carne da Imaculada Virgem Maria que o Espírito Santo concebeu Jesus Messias. No silêncio foi gestado. No silêncio nasceu. No silêncio viveu. No silêncio amou os seus até o fim. No silêncio instituiu o mistério sublime de amor do seu Corpo e do seu Sangue, a Eucaristia. No silêncio sofreu e morreu numa cruz para redimir a humanidade, livrando-a do terrível silêncio imortal das trevas do pecado. No silêncio ressuscitou. No silêncio e sempre no silêncio permanece com seu rebanho. No silêncio está a espera daqueles que dizem amá-lo. No silêncio voltará, como um ladrão, quando menos se esperar.

Por tudo isso e outros motivos não salientados é preciso reconhecer o valor imprescindível do silêncio, como condição sine qua non, para um verdadeiro encontro de amor com Cristo eucarístico. O Cristo que habita numa luz inacessível e transbordante de silêncio. O Cristo amigo que se faz Pão de Vida Eterna para todos os que descobriram em Sua amizade o caminho de volta pra Casa do Pai. Também são bem aventurados todos aqueles que se fizerem silêncio ao adentrarem os átrios da casa do Senhor para celebrarem a Ceia do Cordeiro Imolado, sacramento do amor e do silêncio.

 

 Sem. Nailton Almeida,seminarista desta Diocese e estudante do 2º ano de Filosofia no Seminário Maior Nossa Senhora de Fátima